São 19:50. Há exatamente dois anos atrás tudo estava bem.
Era um sábado estrelado e eu me arrumava para sair enquanto
ele dormia no sofá.
Pouco menos de uma hora mais tarde, ele se levantava para me
levar.
Por um momento pensei em recusar a carona, não sei explicar
o motivo, mas não o fiz.
Antes de sair minha mãe insiste para ir com nós. Acho que de
algum modo ela pressentia algo, mesmo sem saber, mas a insistência dela
acarretou em um conflito entre os dois que talvez tenha sido o estopim de tudo!
Meu pai era tão cabeça dura quanto eu e odiava sentir-se controlado, e como
sempre, queria provar que podia fazer tudo sozinho normalmente...
Quando meu pai entrou no carro, senti a raiva percorrendo
seu corpo. Suas veias do pescoço pulavam, e passamos boa parte do caminho
calados, o que não era comum. Sempre conversávamos muito, diferente de mim e
minha mãe. Puxei assunto por todo o percurso mas só obtive respostas curtas.
21:00 eu estava lá no destino. Ele havia parado em um canto
proibido, e quando tentei beija-lo na cabeça, me impediu, mandando que eu fosse
logo para não atrapalhar o transito. Desci do carro e fiquei observando-o
sumir. Mal sabia que, ao deixa-lo ir sem beijar-lhe a cabeça, perdi a
oportunidade de dar-lhe um ultimo beijo...Mal sabia que ali, através da janela
fumê do carro, seria a ultima vez que o veria...
Pouco tempo depois recebi um telefonema, era algum desconhecido
que dizia sem parar que meu pai estava morrendo. Ele havia sido socorrido para
um hospital próximo. Meus sentidos pararam. Não acreditava, não aceitava, não
sabia o que fazer. Eram 19:17 quando tive a pior noticia da minha vida. Mesmo
que tenha precisado ir lá pessoalmente para acreditar. Mesmo que tenha levado
semanas ou até meses para a ficha cair e meu mundo desabar por completo.
Primeiramente vem a raiva...Comecei a ter raiva de Deus, do
mundo...Raiva até mesmo do meu pai que me impediu de dar um ultimo beijo, que
omitiu que não estava bem com o silêncio, por ele não ter me pedido socorro e
sim ter dado a vida para não estragar a minha noite (mesmo não tendo
conseguido)
Raiva da pessoa que socorreu ele, por não ter sido mais rápida.
Raiva de Deus por não dar mais uns segundinhos de prazo até seu coração parar.
Por ser injusto e tirar de um mundo tão imundo uma das pessoas mais doces que
eu conhecia. Tanta gente merecendo morrer, e meu pai, que merecia muitos anos
para realizar milhares de sonhos e ajudar tantas outras pessoas, partindo. Senti
raiva por Deus não ter sussurrado no meu ouvido às 19:50 que eu só teria
algumas horinhas, para que eu pudesse tirar a maquiagem e deitar na barriga
dele como sempre fazia, e encher ele de cosquinha. Pra eu poder dar aquele
beijo de despedida. pra eu poder dizer o quanto o amava, meu deus, o quando eu
o amo....
Senti raiva até da roupa que vestia por não ter o cheiro
dele...
Tire raiva da minha mãe, por ter feito ele passar os últimos
momentos dele com raiva. Raiva da minha família inteira por ninguém ter salvado
ele.
Depois, vem à vontade de sumir, de morrer....De verdade. Não
é como às vezes algo dar errado e você pensa, hipoteticamente, que queria sumir
ou morrer. É uma vontade real, que só quem perde quem se ama descobre. Uma
vontade que faz com que se imagine qualquer objeto pontiagudo que avista, atravessando
sua garganta e evadindo a dor.
Diante de tudo isso, comecei a pensar em tanta coisa que
nunca nada havia me despertado. Dizem que tem sentimentos que só se conhece quando
se é mãe. Eu digo que tem outros que só descobrimos quando perdemos AQUELA
pessoa. A pessoa mais importante de toda a sua vida, por quem você daria a vida
se possível.
Comecei a ver a vida com olhos resignados de uma pessoa injustiçada
e castigada. Com a dor de quem não aceita mais aquela crença de que tudo
acontece na hora certa e que pensa que, sei lá, se um sinal fechado estivesse
aberto, alguém teria tido mais tempo de salvar meu pai, ou, se eu tivesse
percebido que algo não estava bem, eu poderia tê-lo feito. Mas esse papo de que
o sinal estava fechado por que tinha que estar e tudo acontece na hora certa
passa a não ser consolo, e sim dor.
21:17 do dia 17/06/2011 minha vida mudou. Completamente e
sem volta. Meu sorriso mudou. Minha fé se evadiu. Milhares de sonhos seriam
enterrados com ele um dia depois. E eu queria , por um momento, que todos os
pais do mundo morresse para eu, quem sabe, dividir a minha dor. Para que
parassem de me falar que o tempo é o melhor remédio e pra que entendesse de
verdade o que eu sentia.
Aproposito, não é. O tempo nunca vai ser o melhor remédio.
E quando se perde alguém de verdade é que aprendemos isso.
O tempo não cura nada. Ele só tira o foco, por algum tempo,
por muito tempo, mas a dor, ela permanece igual. Quando, como hoje, ou como sábado
passado, ou como toda semana, eu tiro o pó dessa dor, ela se mostra fresquinha,
como, ou pior do que dois anos atrás. A dor é insuportável agora, e será
amanhã, e o tempo não vale de nada. O que ajuda é a vida e a necessidade quase
primitiva de seguir em frente.
Hoje nem tanta coisa é diferente de quando ele se foi. O
vazio na cozinha de manhã prevalece, mesmo que minha mãe tente ocupar aquele
lugar que era dele. Nada substitui. As pessoas são únicas, e quando se vão, não
adianta tentar cobrir o buraco que deixam. O sorriso dele era Único, mesmo
depois dele quebrar um dente que não teve tempo de restaurar.
Nunca me arrependi de não ter ido ao enterro. Por um tempo
me achei cruel, mas a longo prazo me sinto aliviada de guardar na mente ele
sorrindo pra mim, ou até o ultimo olhar que me deu através do vidro embaçado.
Não queria lembrar de seus lábios sem vida, sem sorriso. De seus olhos sem
cor....Não quero....
O mais engraçado de tudo, é que antes de viver algo do tipo,
mal pensamos na morte, e quando pensamos, achamos que sentiremos falta de
tantos grandes detalhes. Mas a verdade é que o que nos faz falta são coisas que
nunca chegamos a pensar que fariam. Chega até a ser cômico que a foto que até
hoje mais me faça chorar ainda seja dele, fazendo uma careta exibindo o buraco
sem dente. Uma foto que eu odiava, agora
daria tudo pra ter aquela cara frente a frente.
Não sinto falta da comida gostosa, mas do fato dele
perguntar toda noite o que eu queria comer, ou se comi bem, se me alimentei e
bebi agua durante o dia. Sinto falta do jeito que só ele assoviava para me
chamar, e como um cachorrinho treinado, eu ouvia e corria, e dos apelidos feios
que ele colocava em mim. Sinto falta dele dizendo que eu estou feia e
assustadora quando na verdade ele me achava linda. Sinto falta do humor negro
que eu odiava, das piadas às vezes inconvenientes e dele jogando imagem e ação
comigo e meus amigos. Sinto falta do coração mole, que fazia por mim mais do
que podia, e que eu sabia que era simplesmente por me amar como ninguém jamais
amou, como ninguém jamais irá amar. Era tão perfeito pra mim, que lembro bem
que quando mais nova, dizia que só casaria se achasse um homem igual a meu
pai...
Mas não existe ninguém igual, e ele se foi. O melhor pai e o
melhor homem que eu já conheci. E hoje, dois anos depois, eu ainda choro e me
pergunto por que ele...