segunda-feira, 17 de junho de 2013

Dois anos sem meu pai.

São 19:50. Há exatamente dois anos atrás tudo estava bem.
Era um sábado estrelado e eu me arrumava para sair enquanto ele dormia no sofá.
Pouco menos de uma hora mais tarde, ele se levantava para me levar.
Por um momento pensei em recusar a carona, não sei explicar o motivo, mas não o fiz.
Antes de sair minha mãe insiste para ir com nós. Acho que de algum modo ela pressentia algo, mesmo sem saber, mas a insistência dela acarretou em um conflito entre os dois que talvez tenha sido o estopim de tudo! Meu pai era tão cabeça dura quanto eu e odiava sentir-se controlado, e como sempre, queria provar que podia fazer tudo sozinho normalmente...
Quando meu pai entrou no carro, senti a raiva percorrendo seu corpo. Suas veias do pescoço pulavam, e passamos boa parte do caminho calados, o que não era comum. Sempre conversávamos muito, diferente de mim e minha mãe. Puxei assunto por todo o percurso mas só obtive respostas curtas.
21:00 eu estava lá no destino. Ele havia parado em um canto proibido, e quando tentei beija-lo na cabeça, me impediu, mandando que eu fosse logo para não atrapalhar o transito. Desci do carro e fiquei observando-o sumir. Mal sabia que, ao deixa-lo ir sem beijar-lhe a cabeça, perdi a oportunidade de dar-lhe um ultimo beijo...Mal sabia que ali, através da janela fumê do carro, seria a ultima vez que o veria...
Pouco tempo depois recebi um telefonema, era algum desconhecido que dizia sem parar que meu pai estava morrendo. Ele havia sido socorrido para um hospital próximo. Meus sentidos pararam. Não acreditava, não aceitava, não sabia o que fazer. Eram 19:17 quando tive a pior noticia da minha vida. Mesmo que tenha precisado ir lá pessoalmente para acreditar. Mesmo que tenha levado semanas ou até meses para a ficha cair e meu mundo desabar por completo.
Primeiramente vem a raiva...Comecei a ter raiva de Deus, do mundo...Raiva até mesmo do meu pai que me impediu de dar um ultimo beijo, que omitiu que não estava bem com o silêncio, por ele não ter me pedido socorro e sim ter dado a vida para não estragar a minha noite (mesmo não tendo conseguido)
Raiva da pessoa que socorreu ele, por não ter sido mais rápida. Raiva de Deus por não dar mais uns segundinhos de prazo até seu coração parar. Por ser injusto e tirar de um mundo tão imundo uma das pessoas mais doces que eu conhecia. Tanta gente merecendo morrer, e meu pai, que merecia muitos anos para realizar milhares de sonhos e ajudar tantas outras pessoas, partindo. Senti raiva por Deus não ter sussurrado no meu ouvido às 19:50 que eu só teria algumas horinhas, para que eu pudesse tirar a maquiagem e deitar na barriga dele como sempre fazia, e encher ele de cosquinha. Pra eu poder dar aquele beijo de despedida. pra eu poder dizer o quanto o amava, meu deus, o quando eu o amo....
Senti raiva até da roupa que vestia por não ter o cheiro dele...
Tire raiva da minha mãe, por ter feito ele passar os últimos momentos dele com raiva. Raiva da minha família inteira por ninguém ter salvado ele.
Depois, vem à vontade de sumir, de morrer....De verdade. Não é como às vezes algo dar errado e você pensa, hipoteticamente, que queria sumir ou morrer. É uma vontade real, que só quem perde quem se ama descobre. Uma vontade que faz com que se imagine qualquer objeto pontiagudo que avista, atravessando sua garganta e evadindo a dor.
Diante de tudo isso, comecei a pensar em tanta coisa que nunca nada havia me despertado. Dizem que tem sentimentos que só se conhece quando se é mãe. Eu digo que tem outros que só descobrimos quando perdemos AQUELA pessoa. A pessoa mais importante de toda a sua vida, por quem você daria a vida se possível.
Comecei a ver a vida com olhos resignados de uma pessoa injustiçada e castigada. Com a dor de quem não aceita mais aquela crença de que tudo acontece na hora certa e que pensa que, sei lá, se um sinal fechado estivesse aberto, alguém teria tido mais tempo de salvar meu pai, ou, se eu tivesse percebido que algo não estava bem, eu poderia tê-lo feito. Mas esse papo de que o sinal estava fechado por que tinha que estar e tudo acontece na hora certa passa a não ser consolo, e sim dor.
21:17 do dia 17/06/2011 minha vida mudou. Completamente e sem volta. Meu sorriso mudou. Minha fé se evadiu. Milhares de sonhos seriam enterrados com ele um dia depois. E eu queria , por um momento, que todos os pais do mundo morresse para eu, quem sabe, dividir a minha dor. Para que parassem de me falar que o tempo é o melhor remédio e pra que entendesse de verdade o que eu sentia.
Aproposito, não é. O tempo nunca vai ser o melhor remédio.
E quando se perde alguém de verdade é que aprendemos isso.
O tempo não cura nada. Ele só tira o foco, por algum tempo, por muito tempo, mas a dor, ela permanece igual. Quando, como hoje, ou como sábado passado, ou como toda semana, eu tiro o pó dessa dor, ela se mostra fresquinha, como, ou pior do que dois anos atrás. A dor é insuportável agora, e será amanhã, e o tempo não vale de nada. O que ajuda é a vida e a necessidade quase primitiva de seguir em frente.
Hoje nem tanta coisa é diferente de quando ele se foi. O vazio na cozinha de manhã prevalece, mesmo que minha mãe tente ocupar aquele lugar que era dele. Nada substitui. As pessoas são únicas, e quando se vão, não adianta tentar cobrir o buraco que deixam. O sorriso dele era Único, mesmo depois dele quebrar um dente que não teve tempo de restaurar.
Nunca me arrependi de não ter ido ao enterro. Por um tempo me achei cruel, mas a longo prazo me sinto aliviada de guardar na mente ele sorrindo pra mim, ou até o ultimo olhar que me deu através do vidro embaçado. Não queria lembrar de seus lábios sem vida, sem sorriso. De seus olhos sem cor....Não quero....
O mais engraçado de tudo, é que antes de viver algo do tipo, mal pensamos na morte, e quando pensamos, achamos que sentiremos falta de tantos grandes detalhes. Mas a verdade é que o que nos faz falta são coisas que nunca chegamos a pensar que fariam. Chega até a ser cômico que a foto que até hoje mais me faça chorar ainda seja dele, fazendo uma careta exibindo o buraco sem dente.  Uma foto que eu odiava, agora daria tudo pra ter aquela cara frente a frente.
Não sinto falta da comida gostosa, mas do fato dele perguntar toda noite o que eu queria comer, ou se comi bem, se me alimentei e bebi agua durante o dia. Sinto falta do jeito que só ele assoviava para me chamar, e como um cachorrinho treinado, eu ouvia e corria, e dos apelidos feios que ele colocava em mim. Sinto falta dele dizendo que eu estou feia e assustadora quando na verdade ele me achava linda. Sinto falta do humor negro que eu odiava, das piadas às vezes inconvenientes e dele jogando imagem e ação comigo e meus amigos. Sinto falta do coração mole, que fazia por mim mais do que podia, e que eu sabia que era simplesmente por me amar como ninguém jamais amou, como ninguém jamais irá amar. Era tão perfeito pra mim, que lembro bem que quando mais nova, dizia que só casaria se achasse um homem igual a meu pai...
Mas não existe ninguém igual, e ele se foi. O melhor pai e o melhor homem que eu já conheci. E hoje, dois anos depois, eu ainda choro e me pergunto por que ele...