Era quase incontrolável a vontade de te dar um abraço apertado e dizer que te amo naqueles minutos que passavam das 21h, mas você estava com pressa demais.
Pressa para ir embora sem que eu pudesse presenciar a sua agonia.
Pressa para me deixar pra sempre sem deixar pra sempre na minha memória os seus olhos de dor. Quero que saiba que nunca perdoarei você por isso, ta ouvindo?
Eram 21:17 quando recebi a ligação com a noticia. Quando meu ar esqueceu de chegar ao pulmão e meu mundo caiu. Quando você, sozinho, gritava por socorro e sentia sua vida abandonar o seu corpo. Eu queria estar lá. Queria ter a oportunidade de fazer alguma coisa. A oportunidade de, pelo menos, ouvir suas ultimas palavras. A oportunidade de saber que você não morreu sozinho, na mão de desconhecidos que sabe-se la se fizeram o que eu pelo menos tentaria fazer pra impedir sua partida. Afinal, nessas horas a gente duvida de toda aquela conversa de hora certa. Sempre acredita que poderia ser diferente, se tudo fosse diferente. Mas não foi...
E agora, pai? Onde você está? O que eu faço com a vontade de te dar um beijo na testa? Com o desejo de dizer que te amo e pular em cima de você como nos velhos tempos? O que faço com as minhas manhãs vazias e com a ausência do carinho que só você sabia me dar? Eu só queria mais um tempo... Só queria a oportunidade de saber que você iria pra poder grudar nos teus braços por 24h, e estocar o teu abraço, pra que essa necessidade dele não parecesse tão insuportável em alguns momentos.
O que eu faço com o meu aniversario sem você? Com meu são joão sem você? Com minha volta pra casa sem você pra me receber e perguntar, quase como rotina, o que eu havia trazido pra comer?
-Sabe, gostaria de ter trazido algo todos os dias pra ver você feliz como nos dias que chegava com o seu chocolate preferido.
Eu nunca vou esquecer da ultima vez que te vi.
Você não me olhou nos olhos. Você não me olhou. Eu sentia que algo estava errado quando você respondeu ao meu "até amanhã pai" com um “até” curto e sem graça. Mas entra em jogo a questão de acreditar que "essas coisas" nunca acontecem com a gente, sabe? Que nada de mal aconteceria. Mas antes guardar a ausência do seu olhar nos meus sabendo que ali ainda tinham vida, mesmo que por pouco tempo, do que lembrar até meu ultimo respirar, deles sem luz e sem vida. Antes lembrar do seu sorriso maroto, do que de sua boca gelada e sem ar.
Tem dias que eu me arrependo de não ter ido te ver depois que tudo aconteceu. Me arrependo por que se tivesse o feito, poderia ter beijado a sua testa, dito que te amo...
Mas do que adianta se nada daquilo teria retorno? Se você não sentiria nem diria "eu também te amo, painho."
Fazem quase 30 dias que tudo (TUDO) ao meu redor perdeu o tom, a importância e a prioridade. Cada dia eu me dô mais conta de que não tem nada em que você não estivesse. Não tem nenhum plano que não incluísse você. Não tem vida completa se você não esta. E hoje eu vivo com a sua ausência. Tem dias que, na verdade, apenas sobrevivo. Mas é rotina certa a dor me visitar, apertar a minha garganta com força e retirar todo o meu ar a ponto de sentir pontadas no coração. A ponto de pedir pra ir junto. A ponto de achar o mundo injusto. As lagrimas também viraram companhia. Chegam sem avisar junto com a dor no peito, uma ou varias vezes ao dia. Por muito ou pouco tempo...Mas vem. Agora por exemplo, tudo isso esta aqui, sentado do meu lado, vendo eu desabafar pro vento.