Somos um corpo. uma roupa. Um principio.
Lutamos por uma idéia, batemos o pé por um ideal.
Defendemos nossos pontos de vista avidamente. Damos um dedo, uma orelha, um pulmão pelo que acreditamos ser correto. Julgamos o errado.
De repente, trocamos de roupa. Seja qual for o motivo interno, externo...Perceptivelmente ou não, Enfim. Somos o mesmo corpo, com outras vestimentas. Desconfortável, apertada, nem um pouco nossa cara a princípio, talvez. Mas tudo é apenas questão de adaptar-se. E com o tempo, tudo aquilo parece que nunca pertenceu a mais ninguém que não seja você, eu, nós...
Moldamos cada cm de nosso ser para caber no novo espaço. E, sem perceber, mudamos também nossa cabeça. Praticamos a quebra de braço, só que agora, por outros idéias. Defendemos novos conceitos, que vieram grátis naquela blusa nova inicialmente esquisita.
Mudam-se, compasivamente, objetivos, sonhos, visões, sentimentos. A única coisa que sobram são os princípios, aquela coisa que ta no sangue, sabe como é? Mas, que ainda assim, muitas vezes são esquecidos na gaveta por tempo indeterminado.
E este ciclo recomeça, vai, volta, muda, mas nunca para. Vivemos uma eterna metamorfose. Mudamos de cabelo, de cor de pele devido ao clima do local em qual passamos a viver, de estilo de calça comprida, tempos mais folgadas, outros, mais ajustada. Mudamos também, de tamanho de salto alto. Mudamos de voz, de costumes, do modo de rir, do tom com que falamos, e as expressões utilizadas. Mudamos de casa, de emprego, de cidade, de amigos, de namorado. Deixamos de gostar de animais de estimação, e preferimos morar no ultimo andar ao invés de morar em casa. Mudamos o paladar, o conceito de beleza, de certo, de errado, de concreto e abstrato. Volta e meia nossos princípios se embaraçam, ficam confusos, desnorteados...E do nada percebemos que já não somos nós. É uma alma em um corpo perdido. Uma alma, em uma cabeça quebrada. Uma alma límpida, mas agora sem uma digna morada.
E no dia que a ficha cai e nos damos conta de tudo isso, fazemos a velha limpeza pouco rotineira no guarda-roupa, jogamos tudo fora, e vestimo aquela blusinha simples e colorida, já com cheiro forte de mofo e desbotada pelo tempo chamada essência, mas ainda assim, tão nossa.
É o nosso principio que está ali. Somos nós. E assim, só assim, posso ser de novo quem sempre pensei ser e tanto me orgulhei um dia. O resto, mando o carro de mudanças levar de volta do lugar que tirei, usei, e constatei, não me serve em nada.
