sexta-feira, 23 de julho de 2010

Um ano depois, é doce lembrar.


  Hoje o dia amanheceu meio cinza. E não me refiro ao fato do sol ter se escondido e das pancadas de chuva que tem caído. Mesmo se lá fora estivesse claro, aqui dentro ainda estaria escuro...
Acho que metade de mim estava em luto, outra metade, sorria profundamente lembrando deste mesmo dia, um ano atrás. (...)

  O dia começou tarde, depois de uma noite presa ao telefone super mal dormida pela ansiedade do amanhecer e pelo peso de tanta angustia por qual passava (passávamos). E por volta das 11h da manhã estaria confirmada aquela viagem, improvisada, de ultima hora, casual e mal pensada demais.
  Sim, talvez se eu tivesse pensado um pouco mais, jamais teria aceitado o convite de um "desconhecido", que eu só havia visto de longe e por foto, que teria entrado na minha vida a no maximo um mês, mas que conhecia a vida tão afundo que parecia ser a pessoa mais confiável do mundo. Nos identificávamos intensamente, desde o momento turvo pelo qual passávamos no setor sentimental, quanto pelos gostos idênticos em tudo, desde musica a cor preferida. Desde comida a filme... E eu fui! Se minha mãe algum dia chegar a ler isso, tenho certeza que fico um ano de castigo, mas ainda assim teria valido muito apena aquela pequena insanidade. (Sem falar daquela outra fuga alguns meses após esta, mas que ai já é outra historia )
   O primeiro encontro, o primeiro abraço. E mais parecia que já éramos, de fato, amigos íntimos. Era nisso que meu pai precisava acreditar, mas acho que até nós mesmos terminamos caindo nessa.
  Viagem longa, e o que antes me fazia estar ali já não tinha mais a mínima importância. Na verdade, em tão pouco tempo nada mais importava, só a melhor companhia do mundo. Eu não teria me importado se nunca tivéssemos chegado no destino. Só de tê-lo do meu lado dirigindo, falando bobeiras e ouvindo musica, já tinha decretado o melhor fim de semana daquele ano- e de fato foi!
  Dois finais de semana era a duração do evento. O primeiro sabado foi esperado minuto por minuto por ter duas de minhas bandas favoritas e a companhia que, até então, eu almejava. As expectativas foram a mil para o mesmo. Tinha tudo pra ser, de longe, muito melhor do que o segundo (Que eu até pretendia ficar em casa). Mas quem diria, o dia mais aspirado, terminou ofuscado por este outro, tão casual e livre de expectativas... E lindo! Na verdade eu nem lembro o que tocou no ultimo sábado do festival. E nem o que eu queria assistir, mesmo sabendo bem que o motivo pelo qual eu queria ir já era mais pessoal, e até "o motivo" já havia perdido o sentido quando eu cheguei la. Não existia mais nada que me interessasse ali, nada, além DELE. Até os shows que eu odiaria ver foram lindos. E não me lembro sinceramente, desde então, de outro dia que eu tenha conseguido aproveitar mais do que aquele. Que eu tenha pulado, sorrido, tomado banho de chuva, ficado feliz e sido feliz como aquele dia!
  Agora se faz um ano. Tantas águas rolaram, tantas coisas aconteceram, tantas pessoas vieram, partiram. Mas em memória, nenhuma mais ficou como ele.
  São doces demais as lembranças, mesmo sabendo que muita coisa nele me deixou amarga no desenrolar dos panos e no passar do tempo, mas quando a maré acalma e a poeira baixa, o que fica é sempre gostoso demais de recordar.

  Acho que a partir deste dia comecei a acreditar que Deus bota anjos em nossas vidas. Ele foi um anjo, que apareceu no momento que eu menos esperava e mais precisava, me estendeu a mão e me tirou do escuro. Foi capaz de me fazer ver muito além do que até então eu insistia em enxergar, e sentir-me feliz novamente. Um anjo que foi a chave para que eu desse fim a uma historia antiga que só me devastava interiormente, e me permitisse a começar uma outra novinha em folhas. Um anjo que me fez sentir coisas inacreditavelmente intensas, em um tempo recorde. E um anjo que partiu em um tempo recorde, porém.
  Um ano é muito, diante do pouco que nos foi permitido estar próximos. As vezes considero a vida injusta por ter posto entre nós tantos obstáculos. Mas logo reflito e sei bem que tudo acontece do jeito e na hora certa, Deus sabe o que faz. E talvez fosse pra ser tudo assim, curto e cheio de lembranças boas. Foi efêmero, sim, mas, ainda assim, suficiente para que ele ficasse de algum modo em mim. É incomparável o carinho que depois de tanto tempo e de mínimos contatos, guardo por ele.
  E mesmo que nunca mais eu saiba nada sobre esta pessoa, continuará sempre aqui, nas minhas orações diárias. Sempre aqui, no porta-retrato na parede do meu quarto... E sem querer ser prepotente, sei bem que ele também está sempre aqui, lendo isso, lembrando de mim, torcendo por mim...

Portanto, hoje pra mim vai ser um dia assim, meio claro, meio escuro. Lindo por lembranças doces. Duro por saudades amargas.